O PRECONCEITO ONDE MENOS SE ESPERA

 
O PRECONCEITO ONDE MENOS SE ESPERA
 

Sou estudante de Direito, cursando o sétimo semestre do curso, e há um ano atrás pedi demissão do meu antigo emprego para acompanhar o primeiro ano da vida da minha filha. Tomei essa decisão porque já estava descontente na empresa em que trabalhava há quase dois anos: não possuía oportunidade de crescimento, o salário não somaria a nossa renda familiar, naquele momento, pois era baixo e seria suficiente, apenas, para o pagamento de uma creche no período integral onde moramos, já que não se pode inscrever um bebê na fila das creches públicas antes dos 4 meses e recém inscrita, ela estava no final de uma fila interminável, a vaga não sairia tão rápido.

No inicio do ano de 2017 meu companheiro também ficou desempregado, por corte de gastos na empresa em que trabalhava, e resolvemos os dois buscar oportunidades de trabalho, quem conseguisse primeiro iria trabalhar enquanto o outro cuidaria do bebê até que a vaga da creche pública fosse disponibilizada.

Me cadastrei no site do CIEE, para procurar também vagas de estágio na área que estou em formação e no mês passado consegui um encaminhamento para um escritório de advocacia(a vaga não informava o nome do escritório) - para atuar na área trabalhista, a mesma em que faço meu estágio não remunerado da faculdade e tenho me identificado bastante, a vaga parecia perfeita.

Os requisitos da vaga eram: cursar entre o 7º e 8º semestre de direito, possuir veículo próprio, domínio no word e excel, já haver cursado a disciplina de direito do trabalho na faculdade.

Recebi o e-mail de confirmação às oito e meia da manhã, informando que meu currículo havia sido encaminhado para a empresa e em breve receberia uma ligação para o agendamento da entrevista. No entanto, às dez e quinze da manhã recebi um segundo e-mail do CIEE (intermediário) agradecendo a participação e informando que havia ocorrido a minha liberação da oportunidade de estágio, por alteração nos requisitos exigidos pela empresa, os quais eu não cumpria.

Liguei para o CIEE e questionei quais os requisitos da vaga e me foram informados os mesmos requisitos iniciais, que já estavam presentes no momento da minha candidatura e aos quais eu já cumpria, falei inclusive que eu possuo experiência na área trabalhista, o que poderia agregar um diferencial ao meu currículo. Não souberam me informar em qual requisito eu não me enquadrava, a vaga continuava disponível, eu não poderia me candidatar novamente...

 

Para mim, a única explicação para essa eliminação antes mesmo da entrevista seria, durante a análise curricular, a verificação do fato de que eu tenho uma filha, o que consta no currículo dado que essa é uma informação questionada na hora do cadastro realizado junto ao CIEE, ou ainda que, apesar de ter uma filha o meu estado civil consta como solteira, o que no pensamento deles poderia significar "maternidade solo" e precisar sair sempre que a criança tivesse algum problema, não sei.

Moro com o pai da minha filha, mas na casa dos meus pais, pois no momento não temos condição de mobiliar uma casa e ele não quer casar enquanto estivermos aqui, apenas quando nós dois estivermos trabalhando para podermos ir para nossa casa, mesmo que alugada, ter o nosso espaço. Então até que isso aconteça não tenho como mudar o estado civil, uma vez que não somos realmente casados no cartório, e imagino quantas vezes mais precisarei passar por situações assim.

Não acreditava que isso acontecesse na área jurídica, principalmente em um escritório que defenda direitos trabalhistas, e me entristece demais saber que mesmo quem deveria defender o direito dos trabalhadores alimenta esse tipo de preconceito contra as mães.

A mãe que fez este relato decidiu pelo anonimato, ela ainda está tentando vagas no CIEE
Mãe Anônima

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